História do Azeite
É
difícil apurar a data de aparecimento das oliveiras. No
entanto, há indícios de que estas árvores existiriam na
época do Paleolítico Superior e presume-se que tenham
aparecido na região da Ásia Menor. Por volta de 3.000 a.c.,
a oliveira era cultivada por todo o “Crescente Fértil”. A
sua dispersão pela Europa ter-se-á ficado a dever aos
Gregos. Os Gregos e os Romanos, verdadeiros apreciadores e
produtores de azeite, eram pródigos a descobrir-lhe
aplicações. Para além da sua utilização na cozinha,
aplicavam o azeite como medicamento, unguento ou bálsamo,
perfume, combustível para iluminação e impermeabilizante de
tecidos. Mais tarde, a cultura do olival foi-se espalhando
pela bacia do Mediterrâneo e, através das expedições
marítimas dos Portugueses, acabou por chegar às Américas.
Acabou por se espalhar um pouco por todo o mundo, onde as
condições climatéricas lhe fossem favoráveis.
A Oliveira e a Azeitona
Esta
árvore de porte médio, raramente atinge os 6 metros de
altura, gosta de sol e de clima seco (dificilmente resiste a
temperaturas inferiores a 12ºC). Sendo muito resistente,
ganhou a reputação de ser imortal. No entanto, precisa de
cuidados: proteção de pragas, podas de 2 em 2 anos para
permitir a entrada de sol nas copas, fertilização da terra e
regas nos meses de Abril/Maio e Setembro/Outubro. A apanha
da azeitona realiza-se no Natal, entre Novembro e Janeiro.
O seu crescimento é lento. Nas condições mais favoráveis dá
frutos ao fim de 5 anos após a sua plantação e só atinge o
seu pleno desenvolvimento aos 20 anos. Dos 35 aos 150 anos
atravessa a sua maturidade e encontra-se em plena produção.
Depois dos 150 anos envelhece e o seu rendimento torna-se
irregular.
A palavra azeite vem do árabe Az + zait e quer dizer sumo de
azeitona. O azeite é o sumo decantado e purificado da
azeitona. A sua qualidade depende da combinação de fatores
ambientais (clima e solo), genéticos (variedade da azeitona)
e agronómicos (técnicas de cultivo) e continua com todas as
operações até ao seu envasilhamento.
A colheita do azeite era feita à mão. Estendiam-se mantas no
chão, os homens subiam às árvores e soltavam as azeitonas
que as mulheres apanhavam para cestos. Outro método era o
uso de varas que acabava por danificar a oliveira e os seus
frutos. Recentemente apareceu um gancho que ajudava a puxar
as azeitonas mas a revolução deu-se com o aparecimento de
máquinas que fazem vibrar as árvores libertando-as das
azeitonas.
A seleção das azeitonas, a separação de ramos e impurezas
são tarefas importantes. É necessário transportar as
azeitonas em caixas rígidas para o lagar. Os moinhos de
pedra de outrora passaram a moinhos metálicos ajudados por
prensas hidráulicas, centrifugadoras e máquinas que separam
o azeite por percolação ou filtração seletiva.
Para se produzir um litro de azeite são precisos 6 quilos de
azeitonas. As azeitonas chegam ao lagar onde são limpas e
lavadas. É recolhida uma amostra para o laboratório e faz-se
a pesagem. O ideal é que a moenda seja feita nas 24 horas
seguintes à chegada ao lagar. As azeitonas são moídas e
transformadas numa massa, passando depois à fase da
termobatedura - batimento lento e contínuo da massa, seguido
de aquecimento que ajuda as gotículas de azeite a unirem-se
em gotas de maiores dimensões. O azeite é extraído:
separa-se a fase sólida (o bagaço) da fase líquida (azeite e
águas ruças). Esta operação pode ser feita por prensagem
(método tradicional) ou por centrifugação (método moderno).
Depois o azeite deve ser filtrado, analisado e classificado
por tipos antes de ser embalado. Todo o processo de
armazenamento, transporte, engarrafamento e rotulagem é
rigorosamente controlado.
O grau de acidez do azeite refere-se a um parâmetro químico
que mede a proporção de ácidos gordos livres (ácido oleico).
O Azeite na Cultura Portuguesa
A
oliveira, como árvore resistente à seca e de fácil adaptação
aos terrenos pedregosos, é uma árvore padrão da agricultura
portuguesa. No século XIII as exportações de azeite assumiam
bastante importância.
As regiões da Estremadura e do Alentejo são as primeiras a
serem referidas nos forais no que respeita à produção
olivícola. No final da Idade Média, as zonas com maior
produção são Coimbra e Évora. Foi em Évora, em 1392, que se
lavrou a primeira regulamentação do ofício do lagareiro e só
no século XVI Coimbra e Lisboa lhe seguiram o exemplo.
Durante os séculos XV e XVI, o cultivo do azeite
generalizou-se por todo o país.
A preocupação com a qualidade do azeite era notória,
exigindo-se competência profissional dos executantes. Era
uma produto essencial à subsistência e economia dos povos
que o produziam e consumiam.
Entre 1580 e 1650, a recessão económica afetou a produção
de azeite e criaram-se obstáculos à sua exportação para que
este não faltasse. O desequilíbrio entre a oferta e a
procura agrava-se com o rápido crescimento da cidade de
Lisboa dando origem aos primeiros especuladores do ramo. São
publicadas as primeiras leis que lhe tentam fixar o preço.
Os problemas de produção e comercialização do azeite, não
tendo desaparecido, atenuaram-se com o desenvolvimento da
agricultura e com o aperfeiçoamento dos canais de
distribuição.
A oliveira e o azeite continuam a ocupar uma posição
privilegiada na cultura do povo português.
O azeite dá trabalho a cerca de 400.000 portugueses. O
esforço traduz-se atualmente numa produção da ordem das
40.000 toneladas anuais. A cultura do olival ocupa mais de
340 mil hectares de norte a sul do país e só no Alentejo
existe cerca de 155 mil hectares de terra dedicada à
produção de azeitona. Trás-os-Montes, Beiras e Ribatejo
também são regiões que possuem áreas menores de cultivo.
Cada região tem as suas características próprias de solo e
clima, variando também as espécies de oliveira plantada e os
métodos de produção de azeite. Para preservar estas
diferenças foram criadas normas que regulamentam a forma de
produção do azeite nas áreas protegidas. Aparece o azeite
DOP, azeite com Denominação de Origem Protegida, sendo 5 as
regiões protegidas: Trás-os-Montes, Ribatejo, Norte
Alentejano, Moura e Beira Interior. Para merecer esta
designação o azeite tem de respeitar a variedade de
azeitonas e o processo de fabrico típico da sua região.
Na Saúde e na Gastronomia
É importante selecionar um azeite de qualidade. Quando é
virgem e de baixa acidez, os seus benefícios para a saúde
são imensos, sendo a melhor de todas as outras gorduras.
Rico em vitamina E e ácidos gordos monoinsaturados, o azeite
favorece a mineralização óssea, combate o envelhecimento dos
tecidos e órgãos em geral, contribui para o bom
funcionamento da vesícula biliar e restante aparelho
digestivo e ajuda a prevenir doenças cardiovasculares,
alguns tipos de cancros e diabetes.
Resumindo, os efeitos benéficos do azeite sobre o
organismo são:
- aparelho circulatório: ajuda a prevenir a arteriosclerose
e os seus riscos
- aparelho digestivo: melhora o funcionamento do estômago e
do pâncreas, o nível hepato-biliar e o nível intestinal
- pele: efeito protetor e tónico da epiderme
- sistema endócrino: melhora as funções metabólicas
- sistema ósseo: estimula o crescimento e favorece a
absorção do cálcio
O povo diz: “A melhor cozinheira é a azeiteira” e os livros de receitas tradicionais portuguesas comprovam-no. O azeite aparece em quase todas. Pode ser utilizado em cru - como tempero, em cozinhados - como ingrediente, bem quente - como meio de cozedura ou a frio - como agente conservador de enchidos e queijos. O azeite marca definitivamente a cozinha regional. A sua aplicação dá sabor, aroma e cor, melhora a textura, transmite o calor, integra os alimentos e personaliza e identifica um prato. A dieta mediterrânica é um dos padrões alimentares mais saudáveis do mundo, na qual abundam alimentos de origem vegetal (cereais, legumes e frutos), a carne é comida moderadamente, preferindo-se o peixe e ovos, o azeite é utilizado regularmente e o queijo e iogurtes são consumidos diariamente.
Receitas culinárias
Pasta de Azeitonas "Tapenade" (4 pessoas)
6 anchovas em sal ou em azeite, 1 dente de alho descascado,
250g de azeitonas pretas sem caroço, 3 boas colheres de
alcaparras, 8 colheres de sopa de azeite, pimenta, 2
colheres de sopa de mostarda, 2 colheres de sopa de brandy
(facultativo)
Preparação: Se as anchovas estiverem conservadas em sal,
demolhar em água fria corrente. Depois retirar a cabeça e a
espinha central. Lavar e escorrer. Triturar conjuntamente,
num almofariz ou numa picadora, o alho, as anchovas, as
azeitonas e as alcaparras. Depois de se ter obtido uma pasta
homogénea, adicionar o azeite, batendo, como se estivesse a
fazer uma maionese. Por fim, e sem deixar de bater, juntar a
pimenta, a mostarda e o brandy. A "tapenade" serve-se à
temperatura ambiente com fatias de pão torrado. Esta pasta
pode-se conservar no frigorífico durante vários dias, dentro
de um recipiente fechado. Pode utilizar-se também como
recheio de batatas cozidas ou de ovos cozidos.
Esparguete com Amêijoas (4 pessoas)
1.5 kg de amêijoas, 6 dentes de alho, 1 dl de azeite, 300g
de esparguete, 2 colheres de sopa de salsa picada, sal e
pimenta
Preparação: Pôr as amêijoas de molho em água e sal, durante
2 horas para largarem a areia. Passar por água corrente e
abrir sobre lume forte. Retirar as cascas e coar o suco que
largaram por um passador fino ou por um pano molhado.
Reservar. Descascar, picar e alourar os alhos com o azeite.
Regar tudo com 3 litros de água e assim que ferver,
adicionar metade do suco das amêijoas, sal e esparguete.
Mexer com um garfo, para soltar e deixar cozer até a massa
estar "al dente" (cozida, mas rija). Escorrer o esparguete,
dispor num prato e à superfície colocar as amêijoas
previamente aquecidas no restante suco. Polvilhar tudo com a
salsa e servir imediatamente.
Azeite com 5 aromas (para 1 litro)
3 raminhos de alecrim, 3 raminhos de tomilho, 3 raminhos de
orégãos, 3 raminhos de hortelã, 3 raminhos de manjericão
fresco, 1 colher de sopa de sal grosso, 1 litro de Azeite
Virgem Extra
Preparação: Limpar as ervas aromáticas com papel absorvente,
sem as lavar. Esmagar ligeiramente no almofariz e introduzir
num boião de boca larga - previamente escaldado e seco -
polvilhando as ervas com sal, à medida que se vão
introduzindo. Preencher assim três quartas partes do boião.
Regar as ervas com o azeite até que o nível do azeite
ultrapasse 2 a 3 cm o das ervas. Fechar o boião
hermeticamente e conservar num local seco e escuro durante
três semanas. Passado aquele tempo, filtrar o azeite
deitando-o numa garrafa onde também se introduz um raminho
de uma das ervas aromáticas. Este azeite utiliza-se para
temperar saladas, pratos de legumes e pratos frios, de uma
forma geral.
Escabeche de Peru (4 pessoas)
750g de peito de peru, 1 cebola, 4 cravinhos, 1 cenoura, 1
cabeça de alhos, 1 colher de sopa de pimenta preta em grão,
3 pés de tomilho, 1 folha de louro, 2,5 dl de azeite, 2,5 dl
de vinagre, 2,5 dl de caldo de galinha, sal
Preparação: Cortar o peito de peru em fatias. Descascar a
cebola, cortá-la ao meio e espetar em cada metade, dois
cravinhos. Raspar a cenoura e cortar em rodelas. Introduzir
o peito de peru num tacho e juntar a cebola, a cenoura, os
dentes de alho separados mas sem serem pelados, a pimenta, o
tomilho e o louro. Adicionar o azeite, o vinagre e o caldo e
temperar com um pouco de sal. Levar a cozer em lume brando,
tapado, durante cerca de 1 hora e meia. Deixar arrefecer,
levar ao frigorífico e consumir à temperatura ambiente ou
morno, só dois dias depois de cozinhado, pelo menos.
Bolo Caseiro (4 a 6 bolinhos)
1 limão, 375g de farinha, 1 colher de sopa de fermento em
pó, 2 ovos grandes, 250g açúcar, 2 dl de azeite, 2 dl de
leite, canela em pó
Preparação: Forrar uma forma com folha de alumínio e untar
com azeite. Lavar, enxugar e ralar a casca do limão.
Peneirar a farinha com o fermento e juntar a raspa da casca
do limão. Bater os ovos com uma pitada de sal. Adicionar o
açúcar a pouco e pouco, batendo. Juntar depois o azeite, o
leite e por fim a farinha. Deve resultar uma massa espessa.
Deitar a massa na forma, polvilhar com um pouco de açúcar e
canela e levar a cozer em forno brando (150ºC) durante cerca
de 30 minutos. Deixar arrefecer um pouco na forma e
desenformar. Este bolo serve-se ao pequeno-almoço e merendas
e tem a vantagem de se conservar fofo durante vários dias
dentro de uma caixa metálica.
Fonte de informação: "O Azeite na Cozinha Mediterrânica", financiado pela Comunidade Europeia; "Descobrir o Azeite", Casa do Azeite.